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Clamor social: o clímax e a indiferença dos governantes



Clamor social: o clímax e a indiferença dos governantes

Divaldo Franco

Quando as injustiças sociais atingem o clímax e a indiferença dos governantes pelo povo que estorcega nas amarras das necessidades diárias, sob o açodar dos conflitos íntimos e do sofrimento que se generaliza, nas culturas democráticas, as massas correm às ruas e às praças das cidades para apresentar o seu clamor, para exigir respeito, para que sejam cumpridas as promessas eleitoreiras que lhe foram feitas...

Já não é mais possível amordaçar as pessoas, oprimindo-as e ameaçando-as com os instrumentos da agressividade policial e da indiferença pelas suas dores.

O ser humano da atualidade encontra-se inquieto em toda parte, recorrendo ao direito de ser respeitado e de ter ensejo de viver com o mínimo de dignidade.

Não há mais lugar na cultura moderna, para o absurdo de governos arbitrários, nem da aplicação dos recursos que são arrancados do povo para extravagâncias disfarçadas de necessárias, enquanto a educação, a saúde, o trabalho são escassos ou colocados em plano inferior.

A utilização de estatísticas falsas, adaptadas aos interesses dos administradores, não consegue aplacar a fome, iluminar a ignorância, auxiliar na libertação das doenças, ampliar o leque de trabalho digno em vez do assistencialismo que mascara os sofrimentos e abre espaço para o clamor que hoje explode no País e em diversas cidades do mundo.

É lamentável, porém, que pessoas inescrupulosas, arruaceiras, que vivem a soldo da anarquia e do desrespeito, aproveitem-se desses nobres movimentos e os transformem em festival de destruição.

Que, para esses inconsequentes, sejam aplicadas as corrigendas previstas pelas leis, mas que se preservem os direitos do cidadão para reclamar justiça e apoio nas suas reivindicações.

O povo, quando clama em sofrimento, não silencia sua voz, senão quando atendidas as suas justas reivindicações. Nesse sentido, cabe aos jovens, os cidadãos do futuro, a iniciativa de invectivar contra as infames condutas... porém, em ordem e em paz.

* Divaldo Franco escreve às quintas-feiras, quinzenalmente no Jornal A Tarde da Bahia em 20-06-2013.

 

ABORTO:QUESTÃO DE SAÚDE PÚBLICA

31/08/2009 - CORREIO BRAZILIENSE – DF

LENISE GARCIA
 

É recorrente o argumento de que é preciso encontrar solução para o aborto, porque se trata de uma questão de saúde pública. Colocado dessa forma, concordo plenamente.

Não penso, entretanto, que a solução possa estar na chamada descriminalizaçã o, pois isso só faria agravar o problema, como vem ocorrendo em outros países.

Diz o Ministério da Saúde que acontecem no Brasil entre 1 e 1,5 milhão de abortos por ano. Escapa-me como pode ser feita essa estatística, tratando-se de prática clandestina, mas tomemos a afirmativa como verdadeira. Uma prática que ceifa 1,5 milhão de vidas por ano é, certamente, grande problema de saúde pública. Nenhuma doença tem números tão altos. No Brasil e no mundo, o aborto é hoje a maior causa mortis. Não entra nas estatísticas, já que a criança não nascida não é registrada, não tem nome nem atestado de óbito, mas a falta de registro não muda o fato de que ela viveu - por maior ou menor tempo - e morreu, deixando uma história gravada na memória de seus pais e de outras pessoas. Essas existências truncadas trazem grande ônus social, ao qual pouca atenção se presta.

O aborto também traz grandes males, físicos e psíquicos, para a mulher que aborta. Permitam-me uma comparação um pouco chocante, mas ilustrativa. Dados os males provocados pelo fumo, em alguns lugares proíbe-se fumar. Há quem concorde e quem discorde, quem obedeça ou desobedeça. O pulmão do fumante, entretanto, não distingue entre o cigarro legal e o ilegal.

No caso do aborto, a legalização evitaria algumas complicações decorrentes das condições da prática clandestina.

Entretanto, os principais efeitos nocivos do aborto continuariam a ocorrer, como se pode demonstrar com os dados obtidos em países nos quais a prática não é considerada crime na legislação vigente.

Nesse caso não se trata de suposições e extrapolações, mas de estudos científicos publicados em revistas médicas.

Nos Estados Unidos, mulheres que se submeteram ao aborto provocado apresentam, em relação às que nunca fizeram um aborto: 250% mais necessidade de hospitalização psiquiátrica; 138% a mais de quadros depressivos; 60% a mais quadros de estresse pós-trauma; sete vezes mais tendências suicidas; 30 a 50% mais quadros de disfunção sexual.

Além disso, entre as mulheres que fizeram um aborto, 25% exigem acompanhamento psiquiátrico em longo prazo.

Em dezembro do ano passado o British Journal of Psichiatry publicou pesquisas realizadas na Nova Zelândia, que mostraram existir 30% mais problemas mentais em mulheres que fizeram aborto induzido.

O coordenador do trabalho, Dr. David Fergusson, admite que era favorável ao aborto por livre escolha, mas que estava repensando a sua posição em função dos resultados obtidos.

Outro dado preocupante é que a legalização acaba por aumentar significativamente o número de abortos. A Espanha traz-nos um exemplo expressivo.

Em 2008, o editorial do jornal El País comentou que há na Espanha "demasiados abortos". Entre 1997 e 2007, o número de abortos mais que dobrou. Entre 2006 e 2007, houve incremento de 10%. Além disso, uma em cada três mulheres que abortaram em 2007 já haviam abortado anteriormente, uma ou mais vezes. Isso demonstra a banalização da prática. El País comenta que o aborto é "percebido por muitos jovens como um método anticoncepcional de emergência, quando é uma intervenção agressiva que pode deixar sequelas físicas e psicológicas".

Sobre as sequelas psicológicas, já comentei acima. Sobre as físicas, há estudos que mostram maior risco de doenças circulatórias, doenças cérebrovasculares, complicações hepáticas e câncer de mama. A gravidez posterior também fica comprometida, com maior incidência de placenta prévia, parto prematuro, aborto espontâneo e esterilidade permanente.

A solução não está em facilitar o aborto, legalizando- o, mas, pelo contrário, em inibi-lo. Manter a legislação vigente, acabar com a impunidade das clínicas e da venda clandestina de abortivos e, principalmente, fazer um trabalho educativo de valorização da vida. É nesse contexto que se situa o projeto cultura, cidadania e vida, que aconteceu em Brasília de 27 a 30 deste mês, encerrando-se com a 3ª Marcha da Cidadania pela Vida. Uma marcha alegre, que se encerrou com show de Elba Ramalho, mostrando que a vida "é bonita, é bonita e é bonita

LENISE GARCIA: DOUTORA EM MICROBILOGIA, PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE BIOLOGIA CELULAR DA UNB, PRESIDENTE DO MOVIMENTO NACIONAL DA CIDADE PELA VIDA.

Garotas que bebem

Garotas que bebem
16/06/2010 - 09:43 - ATUALIZADO EM 16/06/2010 - 17:44
Elas são divertidas, mas até que ponto?
IVAN MARTINS


Deve ser coincidência, mas quase todo mundo ao meu redor bebe bastante. Pelas estatísticas do Ministério da Saúde, que considera cinco doses de bebida na mesma ocasião um abuso, (quatro doses, se for mulher) vivo cercado de gente que abusa: mensalmente, semanalmente e até diariamente. Eu mesmo não escapo dessa estatística de excesso.

Por quê? Há várias explicações para isso, mas a melhor delas é social. Somos um país de beberrões. Ontem a seleção brasileira jogou no meio da tarde e a balada grã fina ao lado da minha casa rolou até 10 da noite. Tenho certeza de que o pessoal não tomou chá de camomila. Era terça-feira, mas e daí? Temos o hábito de encher a cara hoje e lidar com o problema amanhã.

Outra explicação, de natureza mais íntima, liga o álcool e as drogas em geral às nossas inquietações. Bebemos para conter a ansiedade criada por uma sociedade competitiva, para debelar o estresse do nosso cotidiano, para espantar a angústia e a solidão. Bebemos, assim como cheiramos e fumamos, porque somos frágeis e precisamos prazer. As drogas são nossa fonte fácil de prazer.

A rigor, não há novidade nisso. No século 17, quando a invenção do gim barateou a embriaguez, criou-se do dia para a noite um exército europeu de alcoólatras. Sabe-se, desde então, que na ausência de regras e na abundância de aflições as pessoas podem beber até morrer. Como a sociedade brasileira é uma das mais permissivas do mundo, e não nos faltam problemas escabrosos, é natural que a turma beba até cair, como faz.

O que há de novo nessa história é a presença das mulheres no balcão. Elas parecem estar bebendo como nunca. No meu círculo de convívio, boa parte das mulheres bebe como homem, na quantidade e na freqüência. Bebem vários dias por semana, bebem muito a cada vez que bebem e vêm fazendo isso há anos – desde a universidade, por exemplo.

Pelas estatísticas do Ministério da Saúde, elas ainda não são páreo para os homens. Na cidade de São Paulo, o percentual de mulheres que admite abusar de bebidas (isto é, ter tomado mais de quatro doses em alguma ocasião, nos últimos 30 dias) é três vezes menor do que o de homens. São 21% contra 7%. Os dados são de 2007.

Mas eu tenho certeza de duas coisas em relação a esses números. A primeira é que as mulheres bebem mais do que confessam. Elas têm mais vergonha do que os homens de expor esse tipo de hábito. A segunda certeza é que o percentual das mulheres que bebe com freqüência está crescendo. Na geração da minha mãe era raro. Na minha é banal. Entre as amigas dos meus filhos tende a ser maior – ao menos que a preocupação com a saúde e a beleza intervenha e mude o curso das estatísticas, o que é incerto a esta altura.

Tenho visto as pessoas deixarem de fumar e passarem a fazer esportes. A dieta tem mudado tão radicalmente que muitos de nós se tornaram vegetarianos ou quase isso. Mas poucas mulheres ao meu redor deixaram de beber. Ou sequer diminuíram. Até agora a geração ao redor dos 30 tem dado um jeito de conciliar boteco, balada e exercícios.

Entre as tantas coisas que se pode dizer sobre isso, é essencial deixar uma delas bem clara: as mulheres têm o direito de encher a cara, como têm o direito de fazer o que quiserem. Dançar bêbadas, por exemplo. Se embriagar entre amigos. Flertar e transar depois de uma garrafa de vinho. Mesmo o ato triste de beber sozinha me parece esporadicamente essencial. Faz parte do que nos torna humanos.

No fim de semana passado eu vi Sex and the City 2. Eu sou fã da série e não gostei de quase nada no filme, mas gostei da cena em que Miranda e Charlotte tomam um porre para conversar com liberdade sobre as chatices da maternidade. Aquilo é de verdade. O álcool frequentemente facilita o encontro das pessoas com elas mesmas.

Acho que as mulheres sofrem mais do que os homens as asperezas do dia-a-dia das nossas cidades e que pesam sobre elas pressões e medos que entre os homens são menores. Daí certa propensão melancólica que leva muitas mulheres a beber em casa, sozinhas. Ou abusar do álcool no conforto das amigas. Ou tomar a terceira dose de champagne para superar aquela maldita inibição. 
Mas isso não significa que se precise beber tanto e a toda hora. O glamour da embriaguez não resiste ao hábito. Aquilo que é bom de vez em quando se torna um horror quando repetido. A bêbada engraçadinha vira uma inconveniente. A ressaca se transforma em desculpa para faltar ao trabalho. De porre, as mulheres brigam com o namorado, com o porteiro, com o filho. E há mais. Encher a cara com frequência piora a saúde, altera o rosto e engrossa a silhueta – e nada disso ajuda a levantar a auto-estima. Quando se trata de álcool, a dose é essencial.

Eu tenho visto, porém, que muitas garotas estão emulando o machismo dos homens quanto ao álcool. É uma cultura autodestrutiva de “quem bebe pouco é fraco, quem para no meio é frouxo, quem não vai até o fim é bundão”. Há muita diversão e farra nesse caminho, mas ele avança numa direção perigosa. As mulheres são menos resistentes do que os homens ao álcool. Além de causar mais danos físicos, ele pode levá-las a fazer coisas arriscadas. Transar sem camisinha é só uma delas. Além do mais, para homens e mulheres esse tipo de atitude porra-louca aponta numa direção ruim. A garota que bebe todas vai ser convidada a tomar um ácido, cheirar uma carreira e, quem sabe, fumar uma pedra. Onde afinal fica o limite? O final dessa história pode ser pavoroso.

O que fazer com a própria liberdade é sempre um problema, sobretudo quando se é jovem e se tem um monte de coisas a provar a si mesmo e ao mundo. Mas eu li uma vez uma entrevista de um grande escritor – o paulista Raduan Nassar – que me ajudou a pensar nisso com mais clareza. O jornalista perguntou do que ele mais se orgulhava e a resposta veio límpida: “Eu me orgulho de não ter permitindo que enchessem minha cabeça de lixo.”

Em um país como o Brasil, onde ídolos e técnicos de futebol gritam na cara de crianças e adolescentes que é preciso beber para ser brasileiro, que é preciso tomar cerveja para ser vencedor, eu às vezes acho a abstinência um ato higiênico de enorme rebeldia – e o ato de beber apenas uma demonstração de obediência coletiva. Mais uma evidência de que estão enchendo a nossa cabeça de lixo. Nossas cabeças de homem e de mulher.

Ivan Martins –http://revistaepoca.globo.com
 Foto:Ivan Martins

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