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VERGONHA QUE NÃO TENHO DE SER NORDESTINA



Imagem: http://www.galeriaaberta.com/militao_santos/slides/Folguedos%20Nordestinos.html
Sheila Raposo - Jornalista
Cultivado entre os cascalhos do chão seco e as cercas de aveloz que se perdem no horizonte, cresceu, forte e robusto, o meu orgulho de pertencer a esse pedaço de terra chamado Nordeste.

Sou nordestina. Nasci e me criei no coração do Cariri paraibano, correndo de boi brabo, brincando com boneca de pano, comendo goiaba do pé e despertando com o primeiro canto do galo para, ainda com os olhos tapados de remela, desabar pro curral e esperar pacientemente, o vaqueiro encher o meu copo de leite, morninho e espumante, direto das tetas da vaca para o meu bucho.

Sou nordestina. Falo oxente, vôte e danou-se. Vige, credo, Jesus-Maria e José! Proseio com minha língua ligeira, que engole silabas e atropela a ortoépia das palavras. O meu falar é o mais fiel retrato. Os amigos acham até engraçado e dizem sempre que eu “saí do mato, mas o mato não saiu de mim”. Não saiu mesmo! E olhe: acho que não vai sair é nunca!

Sou nordestina. Lambo os beiços quando me deparo com uma mesa farta, atarracada de comida. Pirão, arroz-de-festa, galinha de capoeira, feijão de arranca com toucinho, buchada, carne de sol... E mais uma ruma de comida boa, daquela que, quando a gente termina de engolir, o suor já está pingando pelos quatro cantos. E depois ainda me sirvo de um bom pedaço de rapadura ou uma cumbuca de doce de mamão, que é pra adoçar a língua. E no outro dia, de manhãzinha, me esbaldo na coalhada, no cuscuz, na tapioca, no queijo de coalho, no bolo de mandioca, na tigela de umbuzada, na orêa de pau com café torrado em casa!

Sou nordestina. Choro quando escuto a voz de Luiz Gonzaga ecoar no teatro de minhas memórias. De suas músicas guardo as mais belas recordações. As paisagens, os bichos, os personagens, a fé e a indignação com que ele costurava as suas cantigas e que também são minhas. Também estavam (e estão) presentes em todos os meus momentos, pois foi em sua obra que se firmou a minha identidade cultural. 

Sou nordestina. Me emociono quando assisto a uma procissão e observo aqueles rostos sofridos, curtidos de sol do meu povo. Tudo é belo neste ritual. A ladainha, o cheiro de incenso. Os pés descalços, o véu sobre a cabeça, o terço entre os dedos. O som dos sinos repicando na torre da igreja. A grandeza de uma fé que não se abala. 

Sou nordestina. Gosto de me lascar numa farra boa, ao som do xote ou do baião. Sacolejo e me pergunto: pra quê mais instrumento nesse grupo além da sanfona, do triangulo e da zabumba? No máximo, um pandeiro ou uma rabeca. Mas dançar ao som desse trio é bom demais. E fico nesse rela-bucho até o dia amanhecer, sem ver o tempo passar e tampouco sentir os quartos se arriando, as canelas se tremelicando, o espinhaço se quebrando e os pés se queimando em brasa. Ô negócio bom! 

Sou nordestina. Admiro e me emociono com a minha arte, com o improviso do poeta popular, com a beleza da banda de pífanos, com o colorido do pastoril, com a pegada forte do côco-de-roda, com a alegria da quadrilha junina. O artista nordestino é um herói, e nos cordéis do tempo se registra a sua história. 

Sou nordestina. E não existe música mais bonita para meus ouvidos do que a tocada por São Pedro, quando ele se invoca e mete a mãozona nas zabumbas lá do céu, fazendo uma trovoada bonita que se alastra pelo Sertão, clareando o mundo e inundando de esperança o coração do matuto. A chuva é bendita. 

Sou nordestina. Sou apaixonada pela minha terra, pela minha cultura, pelos meus costumes, pela minha arte, pela minha gente. Só não sou apaixonada por uma pequena parcela dessa mesma gente que se enche de poderes e promete resolver os problemas de seu povo, mentindo, enganando, ludibriando, apostando no analfabetismo de quem lhe pôs no poder, tirando proveito da seca e da miséria para continuar enchendo os próprios bolsos de dinheiro. 

Mas, apesar de tudo, eu ainda sou nordestina, e tenho orgulho disso. Não me envergonho da minha história, não disfarço o meu sotaque, não escondo as minhas origens. Eu sou tudo o que escrevi, sou a dor e a alegria dessa terra. E tenho pena, muita pena, dos tantos nordestinos que vejo por aí, imitando chiados e fechando vogais, envergonhados de sua nordestinidade. Para eles, ofereço estas linhas.

20 comentários:

  1. Amei, me apaixonei, quero mais! lindo de morrer. parabéns por esta maravilhosa postagem!Abraços!

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  2. Que texto visceral, maravilhoso!! Somos todos brasileiros e lá fora, somos todos enquadrados da mesma forma. Esse bairrismo preconceituoso é coisa de gente que não viajou e que não viveu a vida em sua integralidade. Beijus,

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  3. Oi amiga blogueira!
    Vim retribuir a visita e fiquei encantada com tuas postagens,parabéns!
    Vou cadastrar teus dois blogs em nossa lista de divulgação.OK!
    As regras são:
    Seguir nossos dois blogs e postar nosso banner de identificação - com link - em seu blog.
    Aguardo!
    tenha uma noite abençoada e uma semana iluminada!
    Beijos!
    http://artesbysiglea.blogspot.com
    http://parceriaentreblogsdeartesanato.blogspot.com
    Espia meu blog pessoal:
    http://artesanatosdasiglea.blogspot.com

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  4. Sinceridade...magia...beijo Lisette.

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  5. Olá vim retribuir a visitinha ao meu blog! Também sou uma blogueira unida!
    Amei esse post porque também sou uma nordestina arretada hehe! Tenho muito orgulho da minha gente que é reconhecida por ser trabalhadora e forte!
    Beijocas! Já estou te seguindo se quiser retribuir:

    http://coisasdamulhermoderna.blogspot.com

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  6. olá Zilda vim retribuir sua visita e dizer que tmabém sou nordestina com muito orgulho sou maranhense só estou em São Paulo a passaeio kkkk mas logo voltarei...já estou seguindo vc bjusssssssssss

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  7. Que bom Berê!!!!Obrigada.Bjs no coração!!!1

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  8. Vige maria...eu também tenho o maior orgulho.
    Com certeza essas linhas não são para mim, pois vivi e vivo quase tudo isso. kkkkk
    Eita lugar arretado esse Nordeste!!!
    Xeros

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  9. Oiee
    Sou das Blogueiras Unindas, lindo seu caninho já estou te seguindo!!!
    Bjoo

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  10. Olá Zilda! Que bom acordar triste, ver teu comentário, ler teus posts e me sentir aliviada de uma saudade enorme que me comprimia o peito.Minha filha caçula, viajou para os USA, para casar com um americano com quem namorava há 8 anos e eu fiquei só! Vês, porque me fizeste tanto bem? Obrigada por tudo!
    Beijos

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  11. Que bom Mariúzia saber que fiz bem!!!Bjs na alma!!!

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  12. Olá Zilda, vim retribuir a visita e o carinho. Obrigada! Já sou sua seguidora, só que minha foto de seguidora é uma flor azul. Parabéns pelo blog,muito aconchegante! Paz de Cristo.

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  13. obrigada pela visitinha amada.E, pelo pitaco também ;rs.Vc é minha centésima seguidora.estou muito feliz.Obrigada minha flor.
    bjs

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